Estudo realizado em Portugal sobre trauma, traços depressivos da personalidade e depressão.
Pretendeu-se estudar a relação entre os acontecimentos traumáticos, os traços depressivos da personalidade e a expressão de sintomatologia depressiva. Para isso, aplicaram-se três questionários de autorrelato (questionário sociodemográfico, Inventário dos Traços Depressivos e o Inventário de Sintomas Psicopatológicos), junto de uma amostra, não aleatória da população portuguesa, constituída por 338 participantes (206 do sexo feminino e 132 do sexo masculino), dos quais 153 responderam ter vivido algum tipo de acontecimento traumático. Sobre a vivência de acontecimento traumático, observou-se que 51 participantes viveram trauma interpessoal (morte súbita violenta, ataque armado, ataque físico, violência sexual) e 86 viveram trauma acidental (morte súbita acidental, fogo ou desastre natural, doença ou ferimento com risco de vida).
Os resultados mostraram que existe relação entre a experiência de acontecimentos traumáticos e os traços depressivos da personalidade e a sintomatologia depressiva. Além disso, foi possível observar que quanto mais precoce for a idade em que o trauma foi vivido, maior será a intensidade dos traços depressivos da personalidade e da sintomatologia depressiva. Encontrou-se uma tendência para que o tipo de trauma interpessoal esteja mais relacionado com os traços depressivos da personalidade e com a sintomatologia depressiva, mas esta relação precisa de ser objeto de futuras investigações. Por fim, encontrou-se um efeito mediador dos traços depressivos da personalidade na relação entre a idade que o trauma foi vivido ou o tipo de trauma (interpessoal vs. acidental) e a expressão de sintomatologia depressiva.
Conclui-se assim que a componente depressiva da personalidade contribui para a compreensão do fenómeno depressivo, no sentido em que parece mediar entre a experiência de trauma e a idade em que foi vivido e o desenvolvimento da depressão.
Autores: Ana Patrão e Bruno Gonçalves, 2020